chocalho alentejano

Nas planícies do Alentejo, mais propriamente na vila de Alcáçovas, em Viana do Alentejo, ainda se ouve o som distinto dos chocalhos do gado que deambula nas pastagens. Um toque melodioso que está enraizado na cultura identificativa alentejana desde o século XVIII, quando começaram a surgir os mestres chocalheiros na região.

A arte do fabrico do chocalho, instrumento musical associado essencialmente à pastorícia, foi classificada pela UNESCO (em dezembro de 2015) como Património Cultural Imaterial com Necessidade de Salvaguarda Urgente. Esta tradição foi praticamente levada à extinção devido à industrialização, à introdução de cercas para controlar o gado e à diminuição da actividade pastorícia. No entanto, o Mar d’Estórias acredita que a arte chocalheira também tem vindo a desaparecer por ser um ofício moroso, tecnicamente complexo e porque são necessários vários anos para dominar todas as pequenas vertentes do fabrico artesanal desta peça.

Antigamente, o gado utilizava um chocalho de tamanho diferente em cada época do ano; e presenteavam a vaca mais gulosa com o chocalho macho (maior e de som mais grave) para que o pastor soubesse quando o animal andava a comer a pastagem do vizinho. Em tempos idos, quando não havia o entretenimento da televisão, os serões eram passados a fazer os badalos, a arranjar as coleiras e as esculpir as cáguedas (fechos personalizados de madeira, de corno ou de cortiça que evitavam a abertura da coleira), tudo para os chocalhos.

Hoje em dia contam-se apenas uma dúzia de chocalheiros a fabricar este instrumento e apenas quatro com menos de 60 anos. Estes mestres do saber antigo fabricam, de forma artesanal, o chocalho a partir de uma chapa de ferro polido (de espessura que varia consoante o tamanho do chocalho) que é talhada a frio na bigorna, com o auxílio de um martelo e a força das mãos. Antes de passar à fase seguinte e através do mesmo processo, os artesãos produzem uma asa, o céu (peça interior para suspender o batente) e o batente. É cortado latão para ser colocado em volta do chocalho e procede-se ao “embarramento” com a moinha, que não é mais do que envolver o chocalho com uma mistura de barro e palha triturada. A palha deixa a pasta de embarração uniforme para que não abra rachas quando a peça for ao forno, evitando que o metal líquido saia do seu interior. É cozido durante 60 minutos a cerca de 1200 graus, no forno, altura em que se dá a fusão do latão e do ferro. Depois o chocalho é retirado e rebolado no chão em cima do cisco de forma a que o latão, enquanto está líquido cubra uniformemente todo o chocalho. Posteriormente é submerso numa tina com água para arrefecer. Solta-se, então, o chocalho da moinha cozida e passa-se à parte complexa e interessante do processo – a afinação.

Diz-se que não se precisa de ser músico, no entanto, o mestre chocalheiro tem de ter uma boa perceção do som para que este seja agradável aos animais e aos pastores. Não obstante, o artesão tenta também que o chocalho potencie o máximo de som possível em cada peça, para que se oiça à distância. Numa fase final, a peça é polida e é-lhe colocado o badalo de madeira, a coleira de pele de vaca, a fivela em latão e a dita cágueda.

Neste património identificativo de um povo está a importância de um saber que não pode ser esquecido. Nós, no Mar d’ Estórias, por querermos dinamizar a preservação desta arte, partilhamos a história deste ofício e temos disponíveis os artesanais chocalhos na nossa loja.