No Algarve, de uma rua caiada de branco estende-se uma trança sem fim, tem a cor do ouro, mas num tom mais envergonhado e menos vaidoso. É uma trança de palma, feita por mãos inquietas e cheias de convicção que juntam as folhas da palmeira-das-vassouras. E quem diria que aquela é a fase mais calma de todo o processo?

Não é falta de esmero, como mostra o significado no dicionário da palavra empreita. Os mestres da empreita não fazem nada ao acaso, tudo tem de ser pensado antecipadamente. Todo o processo leva tempo, e no entrançar das palmas também se mistura um pouco de paciência e muito gosto por o que se faz.

A árvore que ofereceu esta técnica aos algarvios, ganhou três nomes, um científico – Chamaerops humilis, um mais conhecido – Palmeira-anã, e o mais popular – Palmeira-das-vassouras. Foi por uma certa necessidade que os algarvios começaram a fazer a empreita de palma, e isso já remonta ao século XVI, segundo alguns relatos e vestígios encontrados. A necessidade que levou o povo a usar a palma há séculos atrás, foi a mesma do século passado. Eram tantas as palmeiras pelo barrocal algarvio, que seria difícil não reparar nelas e descobrir a utilidade daquela folha esguia. Tinham a matéria-prima, apenas faltava aprender como a trabalhar. Não foi à primeira nem à segunda tentativa, mas conseguiram e descobriram a fórmula certa para a produção de alcofas, golpelhas e esteiras. Tudo o que produziam servia para o trabalho no campo, para a apanha e armazenamento das alfarrobas, amêndoas e figos.

Se alguém soubesse as inúmeras utilidades que a palmeira-anã têm, nunca a teriam apelidado somente de palmeira-das-vassouras, mas sim de palmeira-das-1001-utilidades. Foram apelidadas com este nome, por no Algarve se utilizar pequenas vassouras de palma para caiar as casas de branco durante o verão.

Nos dias de hoje, é difícil imaginar que o Algarve outrora era rural e que a principal ocupação era a apanha dos frutos secos e a pesca. Os tempos de ruralidade já lá vão, e a empreita de palma, por ser tão versátil, ficou! Ficou, porque as mãos que entrançam também ensinam, e quem ensina salvaguarda a história de um povo.

A Maria João Gomes, mentora do projeto Palmas Douradas, foi também ensinada esta técnica ancestral. Ainda há quem tenha a generosidade de passar um testemunho tão antigo, e de não o guardar como se tivesse apenas um único dono. Para que haja mestres que ensinam, terá de haver pupilos que aprendam, e desses ainda existe muitos. Foi o caso da Maria João, que veio viver para a terra da família e quis aprender a arte da empreita, tal como a sua avó fazia. Depois de aprender a primeira técnica, não descansou enquanto não aprendeu todas as outras. Considera que tem nela, toda a arte da empreita por ser a única pessoa que conhece o maior número de técnicas possíveis. A este vasto conhecimento, junta o talento típico de quem gosta de design contemporâneo, e principalmente percebe quais as necessidades das pessoas atuais.

Maria João faz questão de apanhar, tratar e secar as palmas que nascem em solo algarvio, diz que apenas assim faz sentido continuar. Para ela seria impensável trabalhar com palmas vindas de outro país, já tratadas e branqueadas pelo enxofre. A palma algarvia tem uma cor só dela, e é isso que a torna peculiar e bonita. No atelier das Palmas Douradas, ao entrarmos, sentimos um cheiro novo, mas muito agradável ao olfato. É daquelas fragrâncias que podemos guardar para criar memórias dos sítios ou dos momentos. O que de certo nos marca são as peças em si, quer seja pelo tamanho dos tapetes e mandalas, bem como pela genialidade que encontramos nas malas e alcofas.

Quem diria que ao juntarmos matéria vegetal à criatividade, conseguiríamos um legado de tradição que une todo o Algarve. Algumas tradições devem ser mantidas, e mesmo essas devem acompanhar os tempos e evoluir. Esse foi o percurso da empreita de palma, que continuará por cá até que nós queiramos.