Nem sempre foi tão simples abrir o congelador e tirar de lá um gelado de fruta ou de chocolate para aliviar o calor do verão. Houve tempos em que o frio era um privilégio reservado a muito poucos. Antes de se tornar uma sobremesa popular, o gelado era um luxo a que apenas as elites tinham acesso.

As primeiras versões do que hoje conhecemos como gelado pouco tinham em comum com os cones, copos ou colheres coloridas dos nossos dias. Existia apenas a vontade de tornar os dias quentes um pouco mais frescos. Diz-se que tudo começou na China, onde a neve era misturada com polpa de fruta, ou no Antigo Egipto, onde se serviam bebidas arrefecidas com gelo. Aos árabes atribui-se a difusão destas bebidas e sobremesas frescas pela Europa, onde combinavam neve, fruta e mel. Não sabemos ao certo quem inventou o gelado, mas sabemos que diferentes povos ajudaram a construir a sua história, até dar origem aos gelados que hoje fazem parte dos nossos verões.

Foi em Itália que o gelado começou verdadeiramente a ganhar forma. No século XVI, Blasius Villafranca, um médico espanhol a viver em Roma, descobriu que misturar sal com gelo permitia atingir temperaturas ainda mais baixas. A descoberta abriu caminho a novas receitas e os cozinheiros italianos depressa transformaram simples misturas de fruta e leite numa sobremesa digna dos banquetes da aristocracia. O mesmo princípio continua ainda hoje a ser utilizado na preparação artesanal de gelados.

Terá sido durante a dinastia filipina que a corte portuguesa ganhou o gosto pelos sorvetes, bebidas geladas e outras sobremesas. O problema é que, numa época sem eletricidade ou refrigeração, manter o gelo disponível durante os meses quentes era um verdadeiro desafio. A crescente procura transformou-o rapidamente num bem valioso e abriu caminho a um negócio que poucos imaginariam existir.

No século XVIII, este negócio ficou nas mãos de Julião Pereira de Castro, comerciante nomeado Neveiro da Casa Real. Para garantir o abastecimento da corte e da cidade de Lisboa, adquiriu a Real Fábrica do Gelo, na Serra de Montejunto, onde durante o inverno eram produzidas grandes placas de gelo que permaneciam armazenadas até ao verão. A viagem até à capital estava longe de ser simples: o gelo seguia em cavalos e burros até aos locais de armazenamento, prosseguia em carros de bois até à Vala do Carregado e, daí, embarcava pelo rio Tejo rumo a Lisboa, abastecendo a família real, casas nobres e alguns dos cafés mais prestigiados da cidade. Curiosamente, dois desses cafés pertenciam ao próprio Julião Pereira de Castro. Um situava-se no Rossio e o outro na Praça do Comércio, conhecido na época como Café da Neve, que viria mais tarde a tornar-se no histórico Martinho da Arcada, o café mais antigo de Lisboa e o preferido de Fernando Pessoa.

A chegada da refrigeração fez com que este negócio terminasse e os gelados começassem a fazer parte do quotidiano dos cafés e das casas dos portugueses. Séculos depois do gelo percorrer o país para refrescar a mesa da realeza, continuam a existir marcas que fazem do gelado um produto amado agora por todos. A Fini Premium Gelato, criada em 2011, inspira-se nas receitas italianas que ajudaram a moldar esta sobremesa, mas produz inteiramente em Portugal, recorrendo a leite do dia, fruta fresca e ingredientes naturais. Uma forma de provar que, muitas vezes, os melhores sabores continuam a nascer dos ingredientes mais simples.

Depois de tantos séculos de estórias, talvez o próximo gelado saiba ainda melhor.