A perfumaria, ao contrário do que muitas vezes se pensa, não nasceu para perfumar o mundo como o conhecemos hoje. Nasceu primeiro como ritual, depois como medicina e, só muito mais tarde, como prazer. No Antigo Egito queimavam-se resinas aromáticas em honra dos deuses e, séculos mais tarde, o alquimista persa Avicena aperfeiçoava técnicas de destilação que permitiam capturar o aroma das flores. O perfume, antes de ser um frasco, foi cerimónia, remédio e símbolo de estatuto. Só depois passou a ser aquilo que hoje encontramos alinhado nas prateleiras.
Quando Portugal se lançou pelos mares, nos séculos XV e XVI, não regressou apenas com caravelas e mapas. Trouxe também um novo vocabulário de cheiros. Das rotas do Oriente chegaram especiarias raras e caras como a canela, o cravo-da-índia, a noz-moscada e o sândalo. Não eram apenas sabores exóticos para a cozinha europeia; eram também ingredientes valorizados tanto na medicina quanto na preparação de águas aromáticas e de produtos usados pelas elites europeias. Sem o saber, Portugal ajudou a espalhar pelo continente europeu aquilo que hoje reconhecemos como matéria-prima essencial da perfumaria.
Já em terra firme, esse mundo de aromas foi ganhando forma. Primeiro nas boticas e mais tarde nas farmácias, depois nas pequenas oficinas, onde sabão e perfume ainda não se separavam totalmente. Era uma indústria prática, quase silenciosa, mais preocupada com higiene do que com luxo.
É nesse contexto que surgem casas que, ainda hoje, carregam esse legado em Portugal. A Claus Porto, fundada no final do século XIX, e a Ach Brito, criada pouco depois, transformaram o gesto simples de lavar ou perfumar a pele num objeto quase decorativo. Não inventaram apenas produtos, criaram embalagens, cores e identidades visuais que hoje fazem parte do imaginário português. A marca Confiança, por sua vez, mantém viva essa memória industrial mais antiga, em que o sabonete era ainda uma peça de quotidiano antes de ser objeto de design.
Mais recentemente, surgem projetos como a Leme Perfumes com Estória, que já não vivem apenas da tradição, mas da reinvenção dela. Aqui, o perfume deixa de ser apenas herança e passa a ser linguagem contemporânea, inspirada no território, no mar e na forma como Portugal se mostra. Nesse percurso, a marca tem vindo a construir uma narrativa olfativa dedicada aos descobrimentos. Ao Algarve, dedicaram dois perfumes, começando com o sucesso de “Algarve 1434”, um perfume cítrico e quente ao mesmo tempo, em que a laranja, a flor de laranjeira e o âmbar desenham o imaginário do verão algarvio.
Mais recentemente, esse caminho ganha continuidade com um novo lançamento apresentado a 19 de junho no espaço Mar d’Estórias, desta vez com o limão como nota dominante. Um aroma que prolonga essa leitura do Sul, agora mais fresca e luminosa. Este aroma está presente em sabonete e perfume, numa tentativa de fixar o Algarve não apenas na memória, mas também na pele.
A perfumaria portuguesa continua a escrever-se entre o passado e o presente. Reinventa-se sem perder o fio à tradição, transformando memória, território e matéria-prima em novas formas de identidade. E talvez seja isso o mais interessante: não tenta competir com a realidade da perfumaria mundial.
