Um líquido que não é indiferente a nenhuma cultura, a nenhuma nacionalidade. É rei na melhor dieta do mundo, a mediterrânica. Na história da humanidade, a que está documentada, acompanha todos os acontecimentos que fizeram mudar o mundo. A árvore que lhe dá a vida, está carregada de glórias, desde a raiz às extremidades dos galhos que ganharam o poder de anunciar vitórias.

 

É dourado.

É intenso.

É azeite.

 

A verdade e o azeite andaram sempre ao de cima, juntos nas bocas do mundo, ou pelo menos assim o queremos crer. O azeite iluminou os lares, escondido nos candeeiros de latão, durante as alegrias e principalmente nas tristezas. A sua carga histórica e religiosa é a prova da importância a que lhe está associado. Nos dias de hoje é idolatrado, especialmente por aqueles que seguem o culto de se sentar e bem comer. A rega deste líquido luminoso sobre qualquer iguaria é imprescindível para que os sabores de terra e mar sejam enaltecidos sobre a mesa. É também antes da hora do jantar que o seu cheiro passeia pela casa, vindo do fundo de uma panela, que com outros dois ingredientes ganha o nome de estrugido ou refogado. Fez, e ainda faz, parte das mezinhas para curar aquele e outro mal-estar, e que alguém venha dizer o contrário!

Está sempre presente nas despensas portuguesas de onde não pode mesmo faltar. E quando falta, dirigimo-nos à prateleira do supermercado e encontramos os melhores do mundo. Temos essa sorte, de ter à mão de semear azeites virgem extra, galardoados com prémios nacionais e internacionais.

Os lagares estão espalhados por todo o país, e aqui na região do Algarve não são exceção. Mais precisamente em Moncarapacho, está o lagar de azeite Monterosa, justamente no mesmo sítio onde há séculos atrás, existia um lagar romano. Seria quase propositado, se a ideia inicial não passasse por aquele espaço ser uma horta ou um laranjal.

Toda esta aventura inicia-se no ano 1969 com a vinda do sr. Detlev Von Rosen para Portugal. Na busca de climas amenos para exportar legumes frescos para países nórdicos, percebeu que esta terra era fértil. Conseguiu dar início ao seu negócio, mas ainda com as fronteiras europeias fechadas, os produtos acabavam retidos nas alfândegas.

Este contratempo não o fez desistir, e pensou logo num novo modelo de negócio, plantas ornamentais. Aguentariam o tempo de espera nas alfândegas, e não exigiriam muita rega, seria o plano perfeito e foi! Em paralelo ao viveiro das plantas tinha também um laranjal. Devido a um período de seca severa, Detlev percebeu que o laranjal estava a consumir muita água e que o melhor seria mudar para uma cultura mediterrânica que não precisasse de tanta rega.

Assim recomeçou naquele sítio uma história sobre o azeite, que nos dias de hoje é premiado além-fronteiras. São 20 hectares de oliveiras, mais precisamente 7400 árvores, que dão o precioso fruto nas cinco variedades, cobrançosa, picual, maçanilha algarvia, verdeal e frantoio. Todo o processo, desde a apanha à moenda é rápido, para que a qualidade não seja comprometida e a fruta não oxide.

Se em Portugal existem tão bons azeites, por que razão o Monterosa será especial? A razão está no clima mediterrânico ameno do Algarve, faz com que o sabor do azeite seja bastante equilibrado. Ou seja, todos os atributos que um azeite virgem extra deva ter, o aroma e o sabor frutado, o amargo e o picante, não se sobrepõem a nenhum dos outros atributos. Esta particularidade, para quem não tem o palato educado, é essencial para poder desfrutar de um bom bacalhau regado de azeite, ou até de uma tiborna à boa moda dos lagareiros. O Algarve podia ser a última região a ter qualquer tipo de culturas, visto que desde os anos sessenta apenas se dedica ao turismo de praia. Mas algo está a mudar graças a estas empresas que trabalham no que em tempos já foi nosso, agora aliam-no também ao turismo.

 

Este é o ouro em estado líquido, que é guardado por pequenos frutos negros e defendido por galhos capazes de resistir a milhares de anos. No corpo dos portugueses corre esta iguaria, que de ano para ano vai aprimorando o seu sabor, e alegrando as mesas por onde passa. É dourado, é intenso, é azeite português!